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No dia 2 de abril, em Londres, enquanto o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva apertava a mão
de Barack Obama, prometia US$ 10 bilhões ao FMI e ouvia que
ele "é o cara", sob os holofotes da mídia
internacional, a diplomacia brasileira negociava em Brasília
uma forma de ajudar o governo de Mahmoud Ahmadinejad a burlar as
sanções americanas contra o regime iraniano. As
linhas mestras de um acordo entre Brasil e Irã, que seria
assinado durante a visita de Ahmadinejad em maio que acabou adiada,
foram delineadas uma semana antes num encontro a portas fechadas no
Itamaraty, no dia 25 de março. ISTOÉ obteve a ata da
reunião em que o chanceler Celso Amorim e seu colega
iraniano Manoucherch Mottaki, acompanhados de assessores,
protagonizaram uma cena capaz de abalar as relações
entre o Brasil e os Estados Unidos. À revelia das
sanções dos EUA e das advertências do Conselho
de Segurança da ONU, contrário às
transações com instituições financeiras
iranianas, Amorim e Mottaki firmaram os termos de uma ampla
cooperação entre os sistemas bancários
brasileiro e iraniano. O que deixou o ex-chanceler Luiz Felipe
Lampreia de cabelos em pé: "Não se pode ignorar uma
recomendação do Conselho de Segurança da ONU.
Essa negociação com o Irã é como uma
pescaria em águas turvas."
O Itamaraty, no entanto, não
está nem aí. E em sua ênfase atual nas boas
relações com o mundo árabe abriu
negociações com o Export Development Bank of Iran
(EDBI), que entrou para a "black list" (lista negra) do
Departamento do Tesouro americano no final de 2008, ao lado de suas
subsidiárias, a corretora EDBI Stock Brokerage Company, a
empresa de câmbio EDBI Exchange Company, sediadas em
Teerã, e o Banco Internacional de Desarollo, com sede em
Caracas, na Venezuela. Além de congelar os ativos dessas
empresas em território dos EUA, as sanções
proíbem cidadãos americanos de negociar com elas.
Não se aplicam, portanto, aos brasileiros. Mas, na
opinião de diplomatas e especialistas ouvidos por
ISTOÉ, ao furar a barreira o Brasil põe em xeque a
política externa dos Estados Unidos.
Amorim tem defendido abertamente a
equidistância e o pragmatismo nas relações
internacionais. Mas o fato de o Itamaraty ter mantido
silêncio sobre as negociações com o Irã
não corresponde ao histórico da diplomacia
brasileira, que normalmente trombeteia qualquer acordo ou
negócio com outros países.
"Esse gesto vai levantar agora muitas
suspeitas. Por que o Brasil está fazendo isso?", questiona o
analista iraniano Meir Javedanfar, autor de um livro sobre o
governo Ahmadinejad e especialista no programa nuclear de seu
país. Javedanfar prevê mais tensões na
relação do governo Lula com Israel, que protestou
contra a visita de Ahmadinejad, e também atritos com o
Departamento de Estado americano. Para o exchanceler Lampreia, a
diplomacia brasileira se arrisca desnecessariamente. "Agora, que se
tornou público, o acordo certamente vai incomodar", diz ele.
E vai mesmo, especialmente quando autoridades econômicas e
diplomáticas americanas conhecerem o conteúdo das
medidas negociadas entre o Itamaraty e o EBDI. O acordo prevê
mecanismos financeiros para facilitar a exportação e
a importação de bens e serviços, incluindo
operações de reexportação para
terceiros países (o que permite ao Irã escapar do
embargo por uma triangulação comercial), a
criação de joint ventures, a abertura de bancos
iranianos no Brasil e a assinatura de um acordo entre os bancos
centrais para troca de informações sobre o sistema
financeiro.
No documento bilateral, as autoridades
também falam da "necessidade de buscar meios para superar os
prin cipais obstáculos" que impedem os negócios entre
os dois países. Na prática, significa ajudar
Teerã a obter crédito e garantias bancárias
para investimento, que escassearam nos ban cos europeus e
americanos com a imposição das sanções.
Aos olhos dos serviços de inteligência, por exemplo,
as iniciativas de cooperação não passam de
artimanhas para ajudar o Irã a contornar as
sanções e avançar no seu programa nuclear.
Se essa avaliação beira a
paranoia, sendo sucessivamente refutada por Teerã, o fato
é que negociar com um banco de desenvolvimento que
está na "lista negra" americana não é a melhor
forma de pavimentar o caminho para as especiarias do Oriente.
"Trata-se de um gesto equivocado do presidente Lula. Há
várias formas de se estabelecer parcerias que intensifiquem
o comércio bilateral", diz Javedanfar. Um exemplo é o
que tem feito a China, que vendeu ao Irã US$ 10
bilhões, entre 2007 e 2008. Foi seguida de perto pela
Alemanha (US$ 7 bilhões) e os Emirados Árabes Unidos
(US$ 6,6 bilhões). No mesmo período, o Brasil
conseguiu US$ 2,2 bilhões. O volume de comércio
desses países prova que há maneiras menos explosivas
de se estimular as exportações.
"O problema não é
econômico, mas político", alerta o brasileiro Salvador
GhelfiRaza, professor do Centro de Estudos Hemisféricos de
Defesa, um braço acadêmico do Pentágono.
"Ter o direito de fazer um acordo
não quer dizer que seja legítimo fazê-lo.
Está claro que o governo Lula fez uma opção
ideológica", afirma Raza. Ele ressalta que o Export
Development Bank of Iran tem financiado diversos projetos em Cuba,
El Salvador,
Equador, Bolívia e até
montou uma sociedade com a Venezuela: o chamado Banco Internacional
de Desarollo, com sede em Caracas. Recentemente, os presidentes
Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez anunciaram investimento de
US$ 200 milhões para projetos econômicos, industriais
e de extração mineral conjuntos. Mas a meta do
capital conjunto é de US$ 1,2 bilhão.
"Negociar com Ahmadinejad é o mesmo
que negociar com Adolf Hitler.
Ele prega o fim do Estado de Israel e o
extermínio dos judeus", diz o analista israelense Raphael
Israeli, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém.
Para ele, a via de comércio aberta pelo governo Lula tem um
custo alto, "o de vidas humanas". Israeli se refere às
ações de repressão contra os manifestantes que
foram às ruas de Teerã para questionar o resultado da
eleição que reconduziu Ahmadinejad ao poder, e que
terminaram na morte de duas dezenas de pessoas. Mais ponderado,
Raza diz que o Brasil trai a sua história ao apoiar um
regime opressor que é contra a democracia. "Não acho
o Irã um bicho-papão, mas acho que a estrutura Ele
prega o fim do Estado de Israel e o extermínio dos judeus",
diz o analista israelense Raphael Israeli, professor da
Universidade Hebraica de Jerusalém. Para ele, a via de
comércio aberta pelo governo Lula tem um custo alto, "o de
vidas humanas". Israeli se refere às ações de
repressão contra os manifestantes que foram às ruas
de Teerã para questionar o resultado da
eleição que reconduziu Ahmadinejad ao poder, e que
terminaram na morte de duas dezenas de pessoas. Mais ponderado,
Raza diz que o Brasil trai a sua história ao apoiar um
regime opressor que é contra a democracia. "Não acho
o Irã um bicho-papão, mas acho que a estrutura
O chefe da Divisão de Programas de
Promoção à Exportação do
Itamaraty, Rodrigo de Azevedo, que assinou o acordo com o EBDI,
rebate as críticas e diz que o Brasil não vai abrir
mão do direito soberano de negociar com quem quer que seja.
O governo, segundo ele, não está preocupado se o
acordo com o Irã vai afetar as relações com os
Estados Unidos. "Nosso ponto de vista é comercial,
não político. Além disso, há uma
demanda dos empresários brasileiros para negociar com o
Irã", garante Azevedo. A única concessão que o
Brasil admite fazer, segundo ele, é manter-se afinado com as
resoluções do Conselho de Segurança das
Nações Unidas em relação à
energia nuclear. O resto é comércio.
Istoé - por
Claudio Dantas Sequeira
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